Agora que já passou e que a tensão diminuiu, é que sinto a responsabilidade e verdadeira amplitude da nossa intervenção neste evento.

Para começar, desde logo o sítio: A mais jovem e emblemática igreja nacional, a Igreja da Santíssima Trindade. Imponente no seu espaço interior, tem no Cristo e no painel do Altar-Mor a sua melhor e maior expressão. O Cristo... enfim, sujeito a alguma liberdade artística do seu criador, nem sempre seguida pela hierarquia da igreja, nomeadamente quanto ao reportório que se deixa utilizar nas missas....

Com os seus 8.463 lugares todos ocupados, a Igreja viu ainda encher as partes laterais e central, com uma assistência em pé, nos meus cálculos, de pelo menos mais 1.500 pessoas.

Depois a imponência dos sacerdotes e eminências presentes: Vários sacerdotes e o Bispo Emérito de Leiria-Fátima, D. Serafim Silva.

Todos estes ingredientes congregaram-se nos meus braços! Uma sensação incrível, só vivida por um pequeno número de privilegiados. Antes da missa fiz um pequeníssimo ensaio (várias vezes interrompido) e senti os olhos de uma mole imensa de pessoas a convergir para mim. Se essa sensação já não me era estranha, a novidade era sem dúvida a quantidade de pessoas: 10.000! Ufa!

Mantive uma (até para mim) apreciável calma e sensação de gozo de um momento que dificilmente irei repetir. Um gozo enorme!

Depois a missa começou e passei a sentir outras coisas: o coro estava muito concentrado e atento, aqui e ali bem mais do que eu... Não é desculpa, mas cheguei a temer algum erro grave - e esteve quase..., pois tinha o meu cérebro "a mil à hora", com o pensamento em diversas coisas ao mesmo tempo a tentar gozar a música e usufruir do espectáculo que os meus coristas me estavam a dar, mas, ao mesmo tempo, preocupado com as questões técnicas, nomeadamente o som da igreja. E aqui... bem... para não dizer mais, digo que é inconcebível a qualidade sonora de uma igreja tão jovem e bela. Não pode acontecer a ninguém o que nos aconteceu. Tenho a consciência que fui pouco/mal ouvido. O técnico de som não quis ou não sabia como colocar um som com mínima qualidade. Ou estava alto e dava "feedback" ou baixíssimo. Uma desgraça!

No fim da missa um sabor agri-doce por termos sido quase perfeitos mas com o sentimento que merecíamos ter sido melhor ouvidos.

De qualquer modo foram inúmeras as pessoas que nos vieram dar os parabéns e entre abraços e manifestações de contentamento vindas de diversos lados, sempre foi possível acontecer uma coisa que não acontecerá muitas vezes nesta igreja: Palmas!

Já agora, e a propósito de coisas pouco comuns: tive que discutir muito calmamente a introdução dos instrumentos naquela igreja. Para além do órgão utilizamos: 2 violinos, 1 trompete, 1 flauta transversal, 1 oboé e duas violas. Terá sido a primeira vez que semelhantes instrumentos entraram naquela igreja? Tenho a sensação que sim. Se algum dos leitores souber de alguma vez em que algum daqueles instrumentos tenha sido utilizado, faça o favor de me dizer, para partilhar comigo uma alegria: a Igreja não se deve sujeitar ao "normal" que é só única e exclusivamente o uso do órgão. Assim a Igreja não vai lá. Não se moderniza. Não evolui. Espero ter dado um passo em frente naquele recinto de relevância nacional.

De tarde: totalmente diferente, os momentos vividos na parte da tarde tiveram amplitude diferente. Estavam menos pessoas, pelo menos 5.000. Depois foram saindo quando o primeiro discurso começou a levar os humildes servos de Deus a ficar com sono. Não resisto a uma inconfidência: sem pôr em causa a qualidade e validade das palavras proferidas pelo primeiro orador, e muito menos a capacidade intelectual e superior inteligência, não sabe para quem estava a falar. Não merecia ter "tempo de antena". A esmagadora maioria das pessoas que o ouviam, não tinham nem capacidade nem interesse no seus discurso. Mais: dos 0,01% presentes que o poderiam compreender, 0,005% estavam a dormir. Eu sou testemunha disso. Só 3 pessoas naquela igreja viram toda a assistência, e eu fui uma dessas pessoas. Eu diria que foram 35 a 40 minutos perdidos!

Após esta "seca", as coisas animaram e fui orientando os diferentes coros e dirigindo a assembleia presente, ajudando a cantar os cânticos programados. Alguns dos mais interessados foram os elementos do Bispado, que seguiam os meus braços e canto com atenção, com os seus pequenos livros na sua mão. Foi lindo de ver e sentir!

Finalmente, os meus agradecimentos:

- Em primeiro lugar à D. Leonor Leitão Cadete, autora de boa parte das músicas cantadas da parte de tarde e de uma das da missa. De uma simpatia enorme, ajudou e orientou e deu sempre força e alento no decorrer do tempo e foi uma honra ter tido a possibilidade de estar perto e actuar junto de tão importante pessoa. Um sincero e sentido agradecimento.
- Depois ao coro de Mondim de Basto e ao seu director, Sr. MARINHO COSTA, que se juntou a nós da parte da tarde e que demonstrou uma alegria e empenho em estar neste evento e aceitou dirigir ambos os coros (Senhor dos Aflitos e Mondim de Basto) o que comportou alguns riscos, que conseguiu minimizar com muita presença de espírito e boa vontade. O abraço final que tivemos tirou-me as palavras da boca: se eu falasse naquele momento, a humidade dos meus olhos podia transbordar. Muito obrigado. Sinto que ganhei um amigo que estou desejoso de rever brevemente. Temos que colaborar em projectos comuns logo que possível.
- Ao Grupo da Imaculada por nos ter confiado semelhante obra. Cantar para 10.000 pessoas assusta qualquer um e nem todos os coros estão prontos/capazes de o fazer. O que foi pedido ao nosso coro e a mim demonstrou a confiança que nos foi depositada, que julgamos ter estado à altura. Quando, ainda antes deste dia, a D. Angelina me dizia para marcar na minha agenda o dia 16 de Outubro de 2010 para estar na festa de encerramento dos 25 anos, ela demonstrou a sua confiança. Um obrigado e uma certeza: lá estaremos.
- Aos patrocinadores do nosso novo uniforme. Marcamos a diferença naquele local pela qualidade da roupa que trazíamos. Todos iguais (à excepção de mim) fizemos uma "mancha visual" muito agradável tanto no coro, como no meio da multidão, até quando fazíamos o nosso piquenique.
- Finalmente: O CORO. Muitos ensaios, muitas horas de trabalho. Mas o resultado final foi simplesmente lindo! Vivemos momentos ali para recordar nas nossas vidas. Valeu a pena! Obrigado de qualquer modo. Perdoem-me alguns momentos de tensão, mas a responsabilidade era alta e não podia deixar de exigir que se fizessem as coisas bem.
Ainda dentro dos agradecimentos ao Coro, não podia deixar em branco de realçar uma pessoa do nosso Coro: A D. Fernanda. Em tudo o mérito é de todos, mas não é possível esquecer os largos momentos de trabalho conjunto através da internet e que várias vezes excederam a meia-noite e mais, para fazer a correcção e os arranjos nas músicas. Sem essa ajuda preciosa o trabalho era mais moroso e quase impossível de realizar. Mas... O nosso novo uniforme tem a sua marca indelével. Desde logo as saias foram feitas por ela. O resto: reuniões, pedidos de ajuda, telefonemas, preocupações atrás de preocupações. Idas ao Porto, ao Marco e sei lá eu mais onde! Muitos kilómetros e muitos minutos de telefone que serão impossíveis de pagar. Mas o resultado final é lindo de se ver! Os homens pareciam uns meninos de colégio e as senhoras e meninas umas hospedeiras de bordo. Lindo, lindo, lindo! Obrigado também a si D. Fernanda.

Domingos Moreira